XV Circuito Internacional de Vila Real
6 e 7 de Julho


              " I remember enjoying driving it there, the car never let me down, it 
                was my all time favourite Ferrari"
  (David Piper)*
Foto: Dave Sullivan

Os Ferrari presentes



Nº50 - David Piper - 412 P #0854
   Vila Real foi a única pista em território português que viu um 412P a participar numa competição.
(Foto gentilmente cedida por Rui Queiroz)


No fim de semana de 6 e 7 de Julho, teve lugar em Vila Real, o tradicional Circuito desta cidade transmontana. David Piper chegou a Vila Real depois de ter ganho as 200 Milhas de Norisring no fim de semana anterior, batendo pilotos como Dieter Quester (Lola T110) e Jo Siffert (Porsche 910).
Na prova destinada aos carros de Sport (grupo 4), a Taça Cidade de Vila Real, e aos Sport-Protótipos (grupo 6), a Taça A.C.P., David Piper e o 412P tinham uma concorrência forte, protagonizada sobretudo por Mike de Udy no Lola T70 MK3 (#SL73/105), o Ford GT40 (#AMGT-2) de Paul Hawkins, Carlos Gaspar com o Ford GT40 (#1022) e o Lola T70 MK3 (SL73/102) de John Woolfe, todos com automóveis equipados com motores de maior cilindrada do que o 4 litros Ferrari de Piper.
A mudança de regulamentação decretada pela CSI, tão incompreensível como injustificável, comunicada somente em Outubro de 1967 (!) pelo alemão Metternich, impunha a limitação da cilindrada máxima dos protótipos a 3 litros, deixando os 330 P4 e 412P inutilizáveis, no que toca a provas do Campeonato do Mundo de Marcas de 1968. David Piper e o seu 412P verde**, assim como outros concorrentes a braços com os novos regulamentos, participaram em provas extra-campeonato, onde estas regras não eram aplicáveis


O 412P #0854 de David Piper, a caminho da Curva do "Boque"
(Foto: Manuel Menéres cedida por Ângelo Pinto da Fonseca)

Nos treinos, de Udy fez o melhor tempo, seguido por David Piper e por Carlos Gaspar. John Miles fez maravilhas ao volante do Lotus 47, realizando o 4º tempo, na frente de Woolfe.
De referir que o 412P de David Piper esteve “alojado” durante o fim de semana na antiga Garagem Loureiro, onde a equipa montou a sua base.
Na largada para a corrida composta por 25 voltas, Carlos Gaspar consegue partir à frente, logo seguido por Piper e de Udy, mas no final da 1ª volta, de Udy passa já na frente seguido pelo 412P de Piper. Até ao final da prova, os dois primeiros não alteraram posições, mantendo Piper um ritmo tranquilo, sem arriscar em demasia, o que significou no final um 2º lugar à geral e o 1º na categoria Sport-Protótipos (grupo 6), levando para casa mais um troféu. Foi a oportunidade de ver em Portugal um automóvel próximo do Ferrari P4, um dos modelos mais simbólicos produzidos em Maranello, que representou o fim da série P, e foi o testemunho de uma epopeia fabulosa, onde a Ferrari cumpriu com o desígnio histórico de competir, independentemente da época, dos adversários e das circunstâncias.



Nº72 - Mário Araújo Cabral - Dino 206 S #024
O Dino 206S #024 e Mário Araújo Cabral na zona da Timpeira.
(Foto: Manuel Menéres/Via Ângelo Pinto da Fonseca)

Um dos clientes habituais de automóveis de Maranello foi Alain de Cadenet e os 206S fizeram parte integrante das suas escolhas a partir de 1968.
De Cadenet nasceu em Londres a 27 de Novembro de 1945, e era filho de um “Aide de Camp” do General de Gaulle durante a 2ª guerra mundial. Alain de Cadenet usou durante 1967 um Porsche 904, mas no início de 1968 chegaram-lhe noticias vindas de Itália da existência de um Ferrari (ao que diziam um P2 ou mesmo um P3) quase ao abandono, num barraco perto de Brescia. Cadenet deslocou-se a Itália, e na realidade encontrou esse 206S no meio de um campo, perto dessa cidade italiana. Era o 206S #024 que tinha pertencido à equipa Brescia Corse (utilizado por Marsillio Pasotti, vulgarmente conhecido por “Pam”), que tinha sido até ai intensivamente usado em circuito e provas de rampa. Estava equipado com o motor de 18 válvulas e com injecção, para além de ter sido produzido com um molde de fundição Ferrari. Entusiasmado com o achado, Cadenet fechou negócio. Preparou o transporte do 206S para Genebra, voou para Inglaterra, inscreveu-se nos 1000 Km de Nurburgring e partiu para Genebra ao volante de uma carrinha e atrelado, afim de levantar o seu novo Ferrari e seguir directamente para Nurburgring.
No circuito alemão, fez equipa com Anthony McKay. No entanto, uma série de problemas (seguramente previsíveis num automóvel que algumas horas antes estava em estado de semi-abandono) impediram esta equipa de fazer uma única volta ao traçado alemão.
Antes da disputa do Tourist Trophy em Oulton Park (a 3 de Junho), Cadenet substituiu alguns componentes do motor do Dino. Apesar de ter tido alguns problemas de injecção, a equipa (aqui novamente com Anthony McKay) conseguiu terminar esta prova em 12º lugar da geral. E foi então que este 206S seguiu caminho para Vila Real. De Cadenet cedeu o Ferrari 206S de cor arroxeada a Mário Araújo Cabral. Durante os treinos, Nicha Cabral conseguiu o 9º tempo, 2’48’’66 à média de 147.812Km/h.


Nesta foto pode ver-se claramente a cor roxa que este Dino 206 S ostentava. tal como o novo desenho das jantes do 206S, que substituiram as originais de estrela de cinco pontas (Ex-Fórmula1).
(Foto: Colecção Alberto Rezende Almeida)

Na corrida, que tinha a duração de 25 voltas, enquanto que Michael D’Udy dominava na frente, Nicha Cabral, com o pequeno 206S, lutava por um lugar entre os dez primeiros. À 10ª volta, conseguiu ascender à 8ª posição da geral, com uma volta a menos que o lider. À 13ª volta parou nas boxes, devido a um problema de travões, e perdeu mais uma volta para D’Udy, ficando, desta forma, fora dos dez primeiros. Segundo os registos da altura, Nicha Cabral encetou a partir daqui uma prova plena de combatividade, tendo em conta os problemas de travões e de suspensão que o afligiam, conseguindo recuperar terreno e terminar no 11º lugar da geral (4º dos protótipos e 2º da classe, atrás do Chevron-Climax de Peter Crossley) e a duas voltas de Michael D’Udy e do Lola T70.

Mário Araújo Cabral realizou 23 voltas ao circuito, em 1h 6’ 47’’-23, à média de 143,088Km/h.
Nicha Cabral referiu a propósito desta corrida: “ (…) Do que me lembro bem é que não fiquei muito impressionado com o carro, sobretudo quando ficou com problemas de suspensão, porque dei um toque com uma roda num passeio. Um dos braços de suspensão ficou danificado e tive muita dificuldade em guiar o carro.” (Dinis, 2001)
Mário Araújo Cabral utilizou este mesmo Ferrari 206S, uma semana depois, nos Circuito de Montes Claros, onde terminou em 2º lugar, atrás do Ford GT40 de Carlos Gaspar.



*    Frase recolhida de um depoimento feito por David Piper para a realização deste artigo.
** Os carros da equipa de David Piper eram verdes, pois este foi apoiado durante toda a 
     sua carreira pela BP.

Agradecemos a colaboração de David Piper na realização deste artigo, quer na cedência de fotos, quer nas informações que muito gentilmente nos cedeu, para além de João Lacerda e Ângelo Pinto da Fonseca.